quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

A Tolerância do Amor


Título original: The toleration of love


Extraído de: Christian Love, or the Influence of Religion upon Temper


Por John Angell James (1785-1859)

Traduzido, Adaptado e
Editado por Silvio Dutra


"O amor suporta todas as coisas."
"O amor acredita em todas as coisas."
"O amor espera todas as coisas."

1. "O amor SUPORTA todas as coisas."
Alguns autores consideram este sétimo verso de I Cor 13, como uma ampliação do precedente e explicam-no, em referência à verdade, da seguinte maneira: "O amor suporta todas as coisas", relatadas nas verdades das Escrituras, em oposição à corrupção da natureza do ser humano. "O amor crê todas as coisas" importadas das verdades da Escritura, ou todas as inferências que os apóstolos deduziram dela, como sendo bem ligadas à fonte de onde ela flui. "O amor espera todas as coisas" prometidas nas verdades da Escritura. "O amor sofre todas as coisas", ou sofre pacientemente todas as aflições que possam assistir a um firme apego às verdades da Escritura. Isso dá um bom senso das palavras e admite toda a força dessas expressões universais. No entanto, certamente concorda melhor com o escopo do apóstolo, em entender o versículo com referência aos irmãos como sendo os objetos deste amor.
Se entendermos a primeira expressão, "O amor suporta todas as coisas", como nossos tradutores entenderam, isso pode significar que carregamos os fardos e fraquezas, uns dos outros, o que é cumprir a lei de Cristo; e deve ser confessado que isso é estritamente verdadeiro, pois quem está sob a influência do princípio do amor possuirá um espírito de terna simpatia. Neste mundo, todos gememos, sendo sobrecarregados; cada um tem sua própria carga de cuidado, ou tristeza, ou imperfeição. Este mundo não é o estado onde encontramos o descanso perfeito. Quão ampla é a abrangência, quão frequente a oportunidade, quantas vezes as ocasiões, para a "simpatia do amor"! E quem é possuído da benevolência, pode permitir-se passar por um irmão na estrada, trabalhando sob um fardo mais pesado do que os seus próprios, sem oferecer ajudar para carregá-los?
Não devemos ser audaciosamente intrusivos e intermediários, nem espremer os segredos de nossos próximos com curiosidade, mas investigar a causa que lhes dá tanta preocupação ou dor é o dever daqueles que são testemunhas de seu rosto preocupado e olhar abatido. Que coração insensível deve ter aquele homem que pode ver uma pessoa muito triste diante dele, e nunca perguntar gentilmente a razão de sua tristeza!
É pouco o que a simpatia pode fazer pelo sofredor, mas quanto menos possa fazer, mais alegremente deve ser oferecido, porque ser despercebido e estar sem piedade em nossas enfermidades, acrescenta muito ao seu peso.
Para que propósito os cristãos são reunidos em igrejas? Não apenas para comer juntos a Ceia do Senhor, pois isso poderia ser feito sem qualquer reconhecimento distinto de um relacionamento mútuo, como o que ocorre na comunhão dos crentes. O fim e o projeto desse vínculo é que, unidos como um só corpo, os membros possam ter uma simpatia geral uns pelos outros e exercer sua benevolência no caminho da assistência mútua.
Os ricos, por sua generosidade devem ajudar seus irmãos mais pobres a suportar o fardo da pobreza; os fortes devem ajudar os fracos a suportar a carga de seus medos e apreensões; aqueles que estão em saúde e conforto devem através de visitas sazonais, palavras suaves, e serviços gentis carregar o fardo dos doentes; o conselho deve ser sempre dado quando é procurado por aqueles que estão em dificuldade; e uma disposição deve permear todo o corpo, para tornar seus variados recursos, talentos e energias, disponíveis para o benefício do todo.
Mas, embora isso também dê um belo significado e imponha um dever necessário, não é a visão correta da passagem. A palavra traduzida "suporta" todas as coisas, significa também "conter, esconder, cobrir". A ideia de "suportar", é paralela em significado à de "perseverar", da qual o apóstolo fala na última parte do versículo; e não é provável que tenha sido sua intenção expressar o mesmo pensamento duas vezes. Adotando a ideia de "encobrir", como o sentimento que ele pretendia expressar; e as "falhas dos outros", como o objeto a que se refere, eu continuarei mostrando como isto é na prática.
Para fazer isso com um efeito ainda maior, mostraremos uma visão geral dos pecados aos quais esta visão do amor cristão está exposta; e estes são - calúnia, detração e julgamento precipitado, ou censura.
Talvez não haja pecados mais frequentemente aludidos ou mais severamente repreendidos nas Escrituras do que os da LÍNGUA; e por esta razão, porque não há nenhum com o qual sejamos tão frequentemente tentados, nenhum ao qual estamos tão propensos, ou tão ousados a desculpá-lo, nenhum que seja tão produtivo de desordem e desconforto para a sociedade. Além das palavras vãs, da falsidade, da obscenidade e da blasfêmia, a Escritura fala de testemunho falso, de cochichos, de calúnias e de censuras; uma enumeração sombria de vícios pertencentes a esse membro do corpo, que era a glória de nosso corpo.
Por “difamação”, entendemos a circulação de um relatório falso com a intenção de prejudicar a reputação de uma pessoa. Seu excesso mais vicioso é a invenção e construção de uma história que é absolutamente falsa do começo ao fim. Seu próximo grau mais baixo, embora pouco inferior em criminalidade é tornar-se o propagador do conto, sabendo que é falso. "Isto", diz Barrow, "é tornar-se os vendedores de mercadorias falsificadas, ou sócios neste comércio vil.” Não existe nenhum criador de falsidades que não tenha emissários e cúmplices prontos para tirar da sua mão e passar sua mercadoria para outros, e assim os caluniadores que espalham a estória são menos culpados do que os primeiros, os seus autores. Quem produz mentiras pode ter mais inteligência e habilidade, mas o "difusor da calúnia" mostra malícia e maldade semelhantes. Não há grande diferença entre o diabo vil que prepara relatórios escandalosos , e os diabinhos que correm e os dispersam.
A próxima operação da difamação é receber e difundir, sem examinar a verdade dos relatos falsos e prejudiciais. É uma parte do caráter de um bom homem, que "ele não faz uma censura contra o seu próximo", isto é, ele não a recebe facilmente, e muito menos a propaga; ele não a recebe, senão sobre a evidência mais convincente. Mas, a calúnia funda contos de repreensão sobre "mera conjectura ou suspeita", e levanta uma representação prejudicial em uma mera suposição. Às vezes, murcha a reputação de uma pessoa por falar precipitadamente, ou afirmando de forma veemente coisas que não tem razão para acreditar, e nenhum motivo para afirmar, exceto pela esperança de excitar a má vontade para com o caluniado.
A calúnia é pecaminosa, porque é proibida em todas as partes da Escritura. A calúnia é cruel, porque está roubando ao próximo o que lhe é mais caro do que a vida, a saber, a sua reputação. A calúnia é insensata, porque sujeita o caluniador a todos os tipos de problemas, pois não somente o expõe à ira de Deus, à perda de sua alma e às misérias do inferno no mundo vindouro, como também o torna odioso na vida presente, fazendo com que seja evitado e desacreditado, arma sua consciência contra a sua própria paz, traz sobre si as acusações mais reprovadoras, e não raramente há a vingança da justiça pública, que é nomeada justamente para ser a guardiã não apenas da propriedade e vida, como também da reputação.
A DETRAÇÃO ou MALEDICÊNCIA, difere um pouco da calúnia, embora em sua natureza geral e constituição se assemelhe muito a ela. A calúnia envolve uma imputação de falsidade, mas a detração pode revestir-se de verdade! A calúnia é um veneno adocicado servido em um copo de ouro, pela mão da hipocrisia. O objetivo de um detrator é o mesmo que o do caluniador - prejudicar a reputação de outros, mas ele se serve de meios que são um pouco diferentes. Ele representa as pessoas e suas ações sob as circunstâncias mais desvantajosas que possa, expondo aquelas que podem torná-los "aparentemente" culpados ou ridículos, ignorando as qualidades e ações louváveis ​​daqueles que atacam.
Quando ele não pode negar que o metal é bom, e o selo é verdadeiro, ele o corta, e assim o rejeita como sendo de fato um bom metal - ele interpreta mal as ações duvidosas e joga sobre as próprias "virtudes" do seu próximo, o nome de “falhas”, chamando o sóbrio, de amargo, o moroso consciencioso, de devoto supersticioso, o frágil, de sórdido, o alegre, de frívolo, e o reservado, de astuto! Ele diminui a excelência das boas ações, mostrando o quanto melhor poderiam ter sido feitas, e tenta destruir toda a confiança no caráter estabelecido há muito tempo e todo o respeito por ele, concentrando-se em um único ato de imprudência, e expandindo-o em magnitude, pintando assim todo o caráter com a escuridão, que a verdade e a justiça proíbem. Tal é o detrator, cujo crime é composto pelos seguintes ingredientes: vileza, orgulho, egoísmo, inveja, malícia, mentira, covardia e  loucura.
A calúnia deve ser peculiarmente odiosa para Deus, pois Ele é o Deus da verdade, portanto detesta a mentira, da qual a detração sempre tem um tempero. Ele é o Deus da justiça, portanto aborrece especialmente prejudicar as melhores pessoas e ações. O Deus do amor, portanto, não pode deixar de odiar esta violação primária do amor; Ele tem zelo por Sua glória, portanto não pode suportar vê-la ser abusada, arrastando seus bons dons e graças. Ele não pode deixar de odiar a ofensa que se aproxima desse mais hediondo e imperdoável pecado, que consiste em difamar as excelentes obras realizadas pela bondade e poder divino e atribuí-las a causas más.
O mesmo escritor ao falar do mal da detração, que visa desencorajar os outros da execução daquela bondade, que é assim difamada e vilipendiada tem as seguintes belas observações: "Muitos, vendo os melhores homens assim depreciados, e as melhores ações vilipendiadas são desanimados e dissuadidos de praticar a virtude, especialmente em um grau conspícuo e eminente."
Por que muitos dirão a um homem, que valeria a pena ser estritamente bom, vendo a bondade ser tão susceptível de ser mal utilizada? Não seria melhor me contentar com uma mediocridade e obscuridade de bondade, do que por um brilho deslumbrante atrair o olho invejoso, e acender a raiva e o ridículo sobre mim?
E, quando a honra da virtude for exteriorizada em suas práticas, muitos serão desviados dela, assim como a virtude se tornará fora de moda, e o mundo será corrompido por esses agentes do MAL. Parecem sempre desvirtuar, nem mesmo quando temos certeza de que estão falando mal, não o faremos de verdade, se descobrimos qualquer homem que fosse considerado digno, em quem notamos quando estamos sob uma luz mais próxima, que melhor ilumine o nosso entendimento, que os tais não são verdadeiramente o que eles dizem - contudo a sabedoria daria ordens e a bondade disporia para não prejudicar sua reputação, se observássemos sem perigo de erro, qualquer ação benéfica a ser realizada por motivos, princípios ou projetos ruins. Em discrição e honestidade devemos deixá-la passar com a condenação que  sua aparência pode merecer, em vez de difamá-lo expelindo nossas apreensões negativas sobre ele.
A censura é outro pecado da mesma classe - outro filho da mesma família variando entretanto, daqueles que já consideramos agindo não tanto na maneira de "relatar" faltas, mas em "condená-las" com muita severidade. É diferente da calúnia, na medida em que assume que o que ela condena é verdadeiro; e da detração, na medida em que não é exercida com a intenção de ferir outra pessoa em estima pública, mas apenas reprová-la pelo que está errado. Assume o caráter, não de uma testemunha, mas de um juiz, e daí a liminar, "Não julgue".
A censura, portanto, significa uma disposição para examinar os motivos dos homens, a fim de  passar uma sentença sobre sua conduta, para repreender suas faltas, acompanhada de uma relutância em fazer todas as tolerâncias razoáveis ​​por seus erros, e uma tendência para a misericórdia, ao lado da severidade. Não devemos supor que toda a inspeção e condenação da conduta dos outros é pecado, nem que toda repreensão dos ofensores seja uma violação da lei do amor, nem imaginar que devemos pensar bem do nosso próximo em oposição à mais simples evidência, nem que possamos entreter tal opinião crédula da excelência da humanidade, como confiar inocentemente nas pretensões de cada homem. Mas, há algo de errado nesse tipo particular de censura, que indaga inutilmente a conduta e os motivos dos outros homens, examinando-os e julgando-os em nosso juízo pessoal, quando não temos relação com eles que exija tal escrutínio; como emitir nossa opinião quando não é exigida, pronunciar sentença com severidade indevida, e amontoando o maior grau de reprovação sobre um ofensor, com o pior tipo de linguagem que possamos expressar.
"O mundo tornou-se tão crítico e censurável que, em muitos lugares, o principal emprego dos homens, e o principal corpo de conversação é, se o notamos, o de julgar, e todo ajuntamento de pessoas transforma-se em um tribunal de justiça, em cada mesa de um bar onde todos os homens são citados; onde cada homem é acusado e condenado; onde não há qualquer sublimidade ou sacralidade de dignidade, nenhuma integridade ou inocência de vida; nenhuma prudência ou circunspecção de comportamento, que não  pode isentar qualquer pessoa, e ninguém escapa de ser taxado sob algum nome odioso, ou caráter escandaloso. Não apenas as ações exteriores e práticas visíveis dos homens são julgadas, como também seus sentimentos secretos são revisados, suas disposições internas têm um veredicto passado sobre elas, e seus estados finais são determinados.
Grupos inteiros de homens são assim julgados de uma vez! E é fácil em um fôlego, prejudicar todas as igrejas, e com um empurrão derrubar nações inteiras para o poço sem fundo! Sim, o próprio Deus não é poupado, sua providência vem sob o ousado ridículo daqueles que, como o salmista fala de alguns em seu tempo, cuja raça ainda sobrevive: "falam alto e colocam sua boca contra os céus".
Barrow, para denunciar esse temperamento censurador, dá as seguintes QUALIFICAÇÕES DE UM JUIZ: Ele deve ser nomeado pela autoridade competente, e não se intrometer no cargo. A quantos censores podemos dizer: "Quem te fez juiz?" O Juiz deve estar livre de todo preconceito e parcialidade. Mas é este o caso com os censuradores? Ele nunca deve proceder ao julgamento, sem um exame cuidadoso do caso, assim como para compreendê-lo. Que os juízes particulares autonomeados se lembrem disto e ajam segundo o princípio de Salomão: "Aquele que responde a uma questão antes de ouvi-la, isto é uma loucura e uma vergonha para ele".
O juiz nunca deve pronunciar sentença, senão com boas razões, depois de certas provas e convicção plena. Se essa regra fosse observada, quantas censuras seriam evitadas. Ele não se meteria com causas além da jurisdição de sua corte. Se isso fosse lembrado e agido, a voz da censura ilegal iria morrer em silêncio! Pois, quem somos nós, para provarmos os corações e buscar os pensamentos dos homens, ou julgar o servo de outrem? Ele nunca deve agir contra qualquer homem, sem citá-lo para comparecer pessoalmente ou por seu representante, dando-lhe a oportunidade de se defender.
Quando alguém é censurado em companhia, sempre deve ser encontrado algum espírito generoso que proponha que o acusado deve ser enviado para julgamento, e este deve ser adiado até que ele apareça.
O juiz deve pronunciar-se, não de acordo com a imaginação privada, mas segundo as leis públicas estabelecidas. É esta a regra dos censores? Não é seu costume fazer da sua própria opinião privada a lei? Ele deve ser uma pessoa de grande conhecimento e habilidade. Qual é o caráter usual dos censores particulares da conduta humana? Não são pessoas de grande ignorância e poucas ideias que, por falta de outra coisa para dizer, ou capacidade de dizê-lo, falam das falhas de seus semelhantes - um tópico sobre o qual uma criança, ou um tolo, podem ser fluentes?
O Juiz constituído legalmente, também não deve ser é um acusador, além disso, em virtude de seu cargo é um conselheiro para o acusado. Ao contrário, os censuradores não são em geral juízes, acusadores e advogados contra os culpados que levaram ao seu tribunal? O juiz deve se inclinar, até onde o bem público permitir, ao lado da misericórdia. Mas, a misericórdia não tem lugar no seio dos censuradores, e sua própria justiça é crueldade e opressão. O juiz deve ser inocente.
Por que não se ouve uma voz em todas as companhias, quando o prisioneiro é acusado, e começa o processo de julgamento, dizendo "Quem está sem pecado, que jogue a primeira pedra?" O juiz prossegue com solenidade, dor e lentidão, para passar a sentença. Mas, que pressa indecente e superficial, sem exceção de alegria, testemunhamos naqueles que são dados à prática de censurar a conduta do seu próximo.
Agora, a todas estas práticas pecaminosas, o amor cristão é diretamente oposto. É com muito tempo antes que o amor cristão  percebe as faltas dos outros. Não é mais rápido o instinto no pássaro, ou besta, ou peixe para descobrir sua vítima, do que o detrator e os censores são para observar imperfeições, logo que aparecem na conduta daqueles ao seu redor. Sua visão é bastante telescópica para ver objetos deste tipo à distância! Eles têm um poder microscópico de inspeção, para examinar aqueles que são pequenos e próximos; e, ao olhar para as falhas, eles sempre empregam o maior poder de ampliação que seu instrumento admite. Eles estão sempre olhando para aqueles "pequenos defeitos" que a olho nu, se perderiam em meio à virtude circundante. Eles não querem ver virtudes. Não! Tudo o que é virtuoso, bom, e louvável é passado por alto, em busca de deformidade e maldade.
Mas, tudo isso é totalmente repugnante para a natureza do amor, que, atento ao bem-estar da humanidade e ansioso por sua felicidade está sempre olhando para observar as virtudes dos outros. O olho do filantropo cristão é tão empregado na procura da excelência, tão fixo e tão arrebatado por ela quando é encontrada, que é certo que passará sobre muitas coisas de natureza contrária, como não incluídas no objeto de sua busca, assim como quem está à procura de gemas é provável que passe por muitas pedras comuns; ou como aquele que está procurando uma estrela particular ou constelação nos céus, não é susceptível de ver as velas que estão perto dele na terra. Os homens bons são seu deleite, e para encontrá-los muitos da geração do mal foram passados por alto. E há também, um singular poder de abstração em sua benevolência para separar, ao olhar para um caráter misto, o bem, do mal, e, perdendo de vista o mal, concentra sua observação no bem.
E quando o amor cristão é obrigado a admitir a existência de imperfeições, diminui tanto quanto possível a sua magnitude, e as esconde tanto quanto é lícito de sua própria observação. Não se deleita em olhar para elas, não encontra prazer em mantê-las. Se encontramos uma afinidade entre os nossos pensamentos e os pecados de que somos espectadores, é uma prova clara de que a nossa benevolência é de uma natureza muito duvidosa, ou que se encontra num estado fraco. Pelo contrário, se involuntariamente desviarmos os nossos olhos da contemplação do mal, e estivermos conscientes de nós mesmos de uma forte repulsa e de uma angústia aguda quando não pudermos nos afastar totalmente da visão dele, possuímos uma evidência de que conhecemos muito essa virtude que cobre todas as coisas. Se estivermos corretamente, como devemos ser, sob a influência do amor cristão, faremos todas as concessões razoáveis ​​para as coisas que são erradas na conduta de nosso próximo, como já vimos, e não iremos adiante para suspeitar do mal, mas devemos fazer tudo para diminuir a hediondez da ação. É o que se quer dizer, quando se diz que "o amor cobre uma multidão de pecados". "O ódio suscita contendas, mas o amor cobre todos os pecados."
É o desejo e o ato do amor esconder do público todas as faltas que o bem do ofensor e os fins da justiça pública não exigem ser revelados. Há casos em que ocultar ofensas, qualquer que seja a bondade que possa ser para um, seria desonra para muitos. Se uma pessoa que vive em pecado, até agora tem imposto a um ministro, como induzi-lo a propor-lhe para a admissão ao companheirismo da igreja, é o dever de qualquer indivíduo que conhece o verdadeiro caráter do candidato, fazê-lo conhecido do pastor; e a mesma revelação deve ser feita em referência a uma pessoa que já está em comunhão, mas na verdade está vivendo no pecado - a ocultação nestes casos é um dano a todo o corpo de cristãos.
Se uma pessoa é susceptível de ser ferida em suas preocupações temporais, por colocar sua confiança em alguém que é totalmente indigno, é o dever daqueles que estão familiarizados com a armadilha, avisar a vítima destinada de seu perigo. Se alguém está tão distante, independentemente da paz da sociedade e das leis do país, como estar envolvido em grandes crimes contra ambos, a ocultação por parte dos que estão cientes da existência de tais práticas, é uma participação no crime . Como nosso amor deve ser universal, bem como particular, nunca deve ser exercido para os indivíduos de uma maneira que seja realmente oposta aos interesses da comunidade.
Mas, quando não há nenhum outro interesse, onde nenhuma reivindicação exige uma revelação, onde nenhum dano é causado pelo ocultamento, e nenhum benefício é conferido dando publicidade a uma falha, lá nosso dever é cobri-lo com o véu do segredo, e manter um silêncio ininterrupto sobre o assunto.
Em vez desta reserva amigável e amável, quão diferente é a maneira com que muitos agem! Assim que ouviram falar da falha, partiram com a notícia picante, tão contentes como se tivessem a notícia de uma vitória, proclamando o fato melancólico com estranho prazer em todas as companhias, e quase a todos os indivíduos conhecidos. E como há um apetite ganancioso em algumas pessoas por escândalos, eles acham muitos ouvidos tão abertos para ouvir o conto, como seus lábios estão prontos para contar. Ou, talvez relacionem o assunto como um "segredo", exigindo uma promessa daqueles a quem comunicam, que nunca mais o mencionarão. Mas, se não for apropriado publicá-la ao mundo, por que eles falam disso? Se for apropriado para a publicidade, por que trancá-lo em silêncio?
Às vezes, o ato de dizer faltas em segredo é uma espécie de fraqueza lamentável, uma impossibilidade absoluta de guardar qualquer coisa na mente, acompanhada de uma intenção de publicá-la apenas a uma única pessoa, mas em outras pessoas é um desejo de ter a gratificação de ser o primeiro a comunicar o relatório a um grande número; cada um é solicitado para prometer que não vai divulgá-lo, e que o repórter original não pode ser revelado.
Há, então, alguns que publicam as faltas dos outros sob o pretexto hipócrita de lamentar sobre elas, produzindo em outros uma advertência contra a mesma coisa. Você os verá em companhia, com um semblante sério e ouvindo-os se dirigirem à pessoa que esteja sentada ao lado deles, mas com uma voz suficientemente alta para chegar a todos os cantos da sala, o que ele ouviu sobre o Sr. Fulano. Assim, sob o disfarce hipócrita da piedade e do aborrecimento do pecado, ele se entregou a essa propensão maliciosa, porém muito comum para publicar as falhas de algum irmão errado. Ele mencionou o assunto ao próprio indivíduo? Provavelmente não. E se ele reteve esse modo de expressar sua piedade, o que aproveita sua comiseração pública? Que possível simpatia pode haver nisso para o ofensor, ao colocá-lo em público, e apontar suas falhas em companhia?
Há quem suponha, que há pouco mal em falar em seus próprios círculos, das falhas de seus próximos - eles não falariam dessas coisas diante de estranhos, ou da sociedade em geral, mas não sentem nenhum escrúpulo em fazer-lhes matéria da conversação entre seus amigos seletos. Mas, nem todos esses amigos podem ser prudentes,  e se for desejável que o fato não seja conhecido fora do círculo, a melhor maneira é que não seja conhecido dentro dele. Onde não há benefício que possa ser obtido pela publicidade, é melhor em referência ao caráter, fechar o segredo em nossa mente e, literalmente observar a injunção do profeta: "Não creiais no amigo, nem confieis no companheiro; guarda as portas da tua boca daquela que repousa no teu seio." (Miqueias 7: 5).
O amor não só originará, como também não ajudará a divulgar um relatório do mal. Quando o conto chega a ele, nessa direção, ele o detém. "Não é segredo", dizem eles, "senão eu não mencionaria". Mas, não devemos fazer isso, não devemos inventar, nem originar, nem propagar um relatório maligno. Enquanto toda língua é volúvel em espalhar más notícias, o amor será silencioso; enquanto todos parecem ansiosos por gozar a comunhão na calúnia e na censura, e saborear o cálice da destruição à medida que passa pelos companheiros, o "amor" diz à pessoa que contou a história: "Não tenho ouvidos para a difamação, nem mesmo para conhecer as falhas de outros, vá, e fale carinhosamente com o indivíduo de suas falhas, mas não fale delas em público.”
Se todos os homens agissem com base nesses princípios, a calúnia morreria nos lábios que lhe deram origem; os fofoqueiros cessariam por falta de clientes para continuarem seu comércio como "traficantes de maledicência”; as calúnias ficariam fora de moda,  e o amor ao escândalo ficaria faminto pela falta de comida.
Os males então, contra os quais o amor cristão se opõe, são os seguintes:
Calúnia, que inventa um relatório injurioso para prejudicar a reputação de outros.
Detração ou maledicência, que amplia uma falha em alguém que tem muitas virtudes.
A censura, que é demasiado intrometida e rígida para condenar uma falha.
Fofoca, que propaga uma falha.
Curiosidade, que deseja conhecer uma falha.
Malignidade, que tem prazer em uma falha.
Desta lista de vícios, a calúnia é naturalmente a pior, mas uma "disposição fofoqueira", embora possa ter pouco da malignidade da calúnia, é um servo para fazer o seu trabalho, e um instrumento para perpetrar o seu prejuízo. As pessoas desta descrição são muito numerosas! Eles devem ser encontrados em cada cidade, em cada aldeia, sim, e em cada igreja! Eles não são os autores de difamação, mas são os editores; eles não elaboram o cartaz, mas apenas o colam em todas as partes da cidade e são responsáveis, não pela malícia que inventou a mentira difamatória, mas pelo dano de circulá-la. Suas mentes são uma espécie de esgoto comum, no qual todos os fluxos imundos de escândalo estão perpetuamente fluindo; um receptáculo para o que é ofensivo e nocivo!
Essas fofocas podiam ser lamentadas pela sua fraqueza, se não fossem ainda mais temidas pelos danos que causam. Elas não são malignas, mas são criadoras de mágoas; e, como tal, devem ser evitadas e temidas. Cada porta deve ser fechada contra elas, ou pelo menos, cada ouvido. Devem ser sensibilizados quanto a sentirem que, se o silêncio for uma penitência para eles, seus contos ociosos e prejudiciais são uma penitência muito mais aflitiva para o seu próximo.
Agora, essas pessoas não só seriam tornadas mais seguras, porém mais dignas pelo "amor" - essa virtude celestial, ao destruir sua propensão para fofocar, salvá-las-ia do opróbrio e conferiria a elas uma elevação de caráter à qual eram estranhas antes. Transformaria sua atividade em um novo canal e faria, então, com tanta vontade de promover a paz da sociedade, como antes a perturbavam com o barulho da língua ociosa e maldizente. Eles perceberiam que a felicidade de nenhum homem pode ser promovida pela publicação de suas falhas, pois se ele é penitente, ter suas falhas feitas o assento do ridículo, é como derramar vinagre sobre as feridas profundas de uma mente conturbada; ou, se não é penitente, esta exposição fará mal, produzindo irritação e assim, colocando-o mais longe da verdadeira contrição.
Se é essencial para o amor cristão sentir uma disposição para cobrir as faltas que testemunhamos, e tratar com ternura e delicadeza o ofensor, é bastante angustiante considerar o pouco amor cristão que existe no mundo. Quanta necessidade temos de trabalhar por um aumento dele em nós mesmos e difundi-lo pela nossa influência e exemplo, para que a harmonia da sociedade não possa ser tão frequentemente interrompida pelas mentiras do caluniador, os exageros do detrator, os duros julgamentos dos censuradores, ou pela fofoca ociosa do portador do conto.
2. "O amor CRÊ em todas as coisas."
Quase aliado à propriedade que acabamos de considerar, e sendo parte essencial da tolerância, é o seguinte: "O amor crê em todas as coisas", isto é, não somente em todas as coisas contidas na Palavra de Deus, porque a fé no testemunho divino não é  o que  está sendo dito aqui. Mas, o amor crê em todas as coisas das quais são dados testemunhos a respeito de nossos irmãos; não, entretanto, as que são testemunhadas em sua desvantagem, mas em seu favor. Esta propriedade ou operação de amor está tão envolvida, e tem sido ilustrada em tal extensão no que já consideramos, que não é necessário ampliar o assunto novamente. Como o amor considera com benevolente desejo o bem-estar de todos, deve sentir-se naturalmente disposto a acreditar em qualquer coisa que possa ser declarada a seu favor.
Diga a uma mãe afeiçoada sobre as falhas de seu filho; ela imediata e inteiramente acredita no testemunho? Não! Você perceberá um aspecto de incredulidade em seu semblante, você ouvirá perguntas e insinuações duvidosas de seus lábios, e depois que a mais clara evidência foi apresentada em apoio ao testemunho, ainda discernirá que ela duvida de você. Mas, ao contrário, leve-lhe um relatório da boa conduta de seu filho, conte-lhe suas realizações em sabedoria ou em virtude, e você vê de imediato o olhar de assentimento, o sorriso de aprovação, e em alguns casos testemunha até um grau de confiança que equivale à fraqueza. Como podemos explicar isso? Segundo o princípio do apóstolo, "o amor crê em todas as coisas". A mãe ama seu filho; ela está sinceramente ansiosa pelo seu bem-estar, e como nossos desejos têm uma influência sobre nossas convicções, ela se adianta para acreditar no que é dito para honra de seu filho, e recua para acreditar no que é dito para seu descrédito.
Aqui, então, está uma das demonstrações mais brilhantes de amor, como exibido no homem que crê todas as coisas que estão relacionadas com a vantagem dos outros. Ele ouve o relatório com sincero prazer, ouve com o sorriso da aprovação, o aceno de assentimento; ele tenta encontrar fundamento e razão para desacreditar o fato, nem procura com olhar curioso alguma falha na evidência, para acusar a veracidade do testemunho; ele não mantém cautelosamente seu julgamento em suspenso, como se tivesse medo de crer muito bem do seu próximo, mas se a evidência provém de probabilidade, ele está pronto a acreditar no relato, e se deleita em encontrar outro exemplo de excelência humana, pelo qual ele pode ser mais reconciliado e ligado à humanidade, e pelo qual descobre que há mais bondade e felicidade na terra, do que conhecia antes.
A prova mais forte e o poder do amor, neste modo de operação, é sua disposição de acreditar em todos os bons relatos de um inimigo ou um rival. Muitas pessoas não podem acreditar em nada de bom, senão que tudo é mau, daqueles que consideram inimigos ou rivais; que uma vez tenham concebido um preconceito de aversão, que tenham sido feridos ou ofendidos, resistidos ou humilhados, por qualquer pessoa, e a partir desse momento seus ouvidos estão fechados contra cada palavra a seu crédito, e abertos a cada história que possa tender para a sua desgraça. O preconceito não tem olhos nem ouvidos para o bem, mas é todo olho e ouvido para o mal. Sua influência no julgamento é imensa, suas operações desconcertantes sobre nossas convicções são realmente muito surpreendentes e assustadoras. Em muitos casos, o preconceito não acredita em evidências tão brilhantes, claras e estáveis ​​como o esplendor meridiano do sol, para seguir o que é fraco e ilusório com a fraca luz de uma vela. Quão temerosos devemos ser para manter a mente livre da influência enganosa do preconceito! Quão cuidadoso é obter esse juízo sincero, imparcial e discriminatório que pode distinguir entre coisas que diferem, e aprovar coisas que são excelentes, mesmo em referência a pessoas que são em alguns aspectos opostas a nós! Esta é a tolerância cristã.
Através dessa grande lei de nossa natureza, que chamamos de associação de ideias, somos muito aptos, quando descobrimos uma coisa errada no caráter ou na conduta de outro, e uni-la com nada, senão o que é errado, e isso continuamente. Nós quase nunca pensamos nele ou repetimos seu nome, senão sob a influência maligna dessa associação infeliz. O que precisamos é mais do poder da objetividade, através do qual podemos separar o "ato ocasional" do "caráter permanente", as más qualidades das boas, e ainda ser deixados em liberdade para acreditar no que é bom, não obstante o que nós saibamos do que é mau.
Se, de acordo com os princípios da revelação bíblica, com o testemunho dos nossos sentidos e com a evidência da experiência, acreditamos que, aos olhos de Deus, não há ninguém tão perfeito como para ser destituído de todas as falhas; devemos ao mesmo tempo acreditar que, na medida em que a mera excelência geral desaparece, há poucos tão maus como para serem desprovidos de todos os traços de aprovação.
O negócio do amor cristão é examinar, relatar, crer com imparcialidade  e, a tolerância é uma das operações do amor. Esta disposição celestial proíbe o preconceito que é gerado pelas diferenças sobre o tema da religião e permite ao seu possuidor desacreditar o mal e acreditar no testemunho favorável que é dado aos de outras denominações e congregações. Toda excelência não pertence à nossa igreja ou denominação; todo o mal não pode ser encontrado em outras igrejas ou denominações! No entanto, quão preparadas estão muitas pessoas a não acreditarem em nada bom, ou em qualquer coisa ruim de outras igrejas ou denominações. Afastemos este espírito detestável! Lancemo-lo fora da igreja do Deus vivo! Como o espírito demoníaco que possuía o homem que habitava entre os túmulos, e fez dele um tormento para si mesmo, e um terror para os outros, este "demônio do preconceito" tem muito tempo possuído,  rasgado, e enfurecido até mesmo o corpo do Igreja.
"Oh Espírito de amor, venha e expulse o infernal usurpador, lance fora este saqueador da nossa beleza, este perturbador da nossa paz, este oponente da nossa comunhão, este destruidor da nossa honra. Prepare-nos para acreditar em todas as coisas que nos são relatadas para o crédito dos outros, sejam eles do nosso grupo ou não, se nos ofenderam ou não, e se em tempos passados ​​fizeram o mal ou o bem".
 3. "O amor ESPERA todas as coisas."
A esperança tem a mesma referência aqui, como entendido na expressão analisada anteriormente, de que o amor crê em todas as coisas como se referindo a pessoas, e não especificamente à Palavra de Deus. De igual forma isto se aplica à ESPERA aqui referida. Mas, o amor espera o bem, daquilo que é relatado existir em nosso próximo. Em um relatório de uma questão duvidosa, onde a evidência é aparentemente contra um indivíduo, o amor ainda vai esperar que algo ainda possa vir para a sua vantagem, que alguma luz ainda será lançada sobre as características mais escuras do caso, que irá definir a matéria de um ponto de vista mais favorável. O amor não dará crédito total às aparências atuais, por mais indicativas que pareçam ser do mal, mas esperará mesmo contra a esperança, para o melhor.
Se a ação em si não puder ser defendida, então o amor esperará que o motivo não seja ruim, que a intenção na mente do ator não era tão má como a ação apareceu aos olhos do espectador, que a ignorância, não a malícia, foi a causa da transação, e que o tempo virá quando isso será visto.
O amor não abandona rapidamente um ofensor em desânimo. O amor não o reputa imediatamente como incorrigível, nem logo deixa de empregar os meios necessários para sua reforma, mas está disposto a esperar que ele ainda possa se arrepender e melhorar, por maiores que as aparências desanimadoras presentes possam ser. A esperança é a principal fonte do esforço, e como o amor significa um desejo pelo bem-estar dos outros, não deixará logo de lado essa esperança, na qual todos os seus esforços devem ser paralisados.
Há razões que o tornam sábio em acreditar e esperar todas as coisas para o melhor. Evidências presuntivas, por mais fortes que sejam, são muitas vezes falaciosas. Muitas circunstâncias no caso podem parecer muito suspeitas; no entanto a descoberta de algum pequeno acontecimento pode alterar o aspecto de todo o assunto e tornar a inocência do acusado muito mais aparente do que até mesmo sua culpa parecia antes. Os vários casos em que nós próprios fomos enganados pelas aparências e guiados por evidências defeituosas, embora que ao mesmo tempo as evidências convincentes, certamente nos ensinem a cautela que devemos ter na escuta de relatos maléficos e nos dispõem a acreditar e esperar todas as coisas para o bem.
Quando consideramos, também, quão comum é a difamação, a destruição e o conto, não devemos nos apressar em formar uma opinião, nem se deve esquecer a preocupação que muitas vezes se manifestam por cada parte envolvida em uma disputa para ganhar a nossa aliança com sua causa, por ser o primeiro a relatar o assunto e produzir uma impressão favorável a si mesmo. Salomão nos deu um provérbio, cuja verdade vimos provada em mil casos, e no entanto, estamos sempre esquecendo  "O que primeiro começa o seu pleito parece justo; até que vem o outro e o examina." (Provérbios 18:17).
É uma prova de grande fraqueza dar o nosso ouvido ao primeiro repórter, e fechá-lo contra a outra parte, e ainda estamos todos prontos a fazer isso! Um conto plausível produz uma impressão, que nenhum testemunho oposto subsequente, embora atendido com evidência muito mais clara da verdade do que a primeira afirmação, pode efetivamente obliterar. Sabemos que cada caso tem dois lados, todos nós conhecemos experimentalmente a loucura de decidir até ouvirmos os dois lados; e ainda, em oposição à nossa razão e à nossa experiência estamos aptos a assumir um preconceito de um ponto de vista unilateral ou partidário.
Outra circunstância pela qual corremos o risco de sermos induzidos em erro em nossa opinião sobre a conduta de nosso próximo é a propensão maliciosa de muitas pessoas para exagerar tudo o que relatam. Seja qual for a causa filosófica em que um "apego pelo maravilhoso deleite na surpresa emocionante", possa ser apreciada, sua existência e prevalência são inquestionáveis. Talvez todos nós gostamos de relatar o que é novo,  estranho e interessante; e isto não excetua até mesmo as más notícias. A tal ponto, isto é levado por aqueles que estão profundamente infectados com a propensão para exagerar, que eles nunca dizem nada como ouviram, cada fato é embelezado ou ampliado.
Se uma pessoa mostrou um pouco de raiva, eles o viram "chateado como uma fúria!" Se estava um pouco alegre depois do jantar, ele estava "talvez bêbado!" Se era evasivo, protestam que ele cometeu “falsidade, senão perjúrio”. Se não tivesse sido tão generoso em suas transações como poderia ser desejado, ele era “um avarento, e desprovido de honestidade comum”.
Nada é moderado e sóbrio nas mãos de tais pessoas; tudo é extravagante ou extraordinário! Todos eles se encontram com a forma de aventura. Do menor incidente podem construir um conto; e em uma base pequena da verdade, levantam uma superestrutura poderosa da ficção, para interessar e imprimir cada companhia em que estejam! Não se deixam intimidar pela presença do indivíduo de quem receberam o fato original, não têm escrúpulo de continuar em magnificar e embelezar, até que o autor da declaração possa mal reconhecer sua própria narrativa.
Quão estranho parece, que tais pessoas não queiram saber, ou se lembrar, que em tudo isso estão dizendo falsidades! Eles não parecem entender que, se relacionarmos uma circunstância de tal maneira que é calculada para dar uma impressão que, na natureza ou em grau, não concorde com a realidade, somos culpados do pecado de mentir. Onde está o caráter de outra pessoa, o pecado é ainda maior, já que acrescenta calúnia à falsidade. Muita reputação de um homem foi desperdiçada por esta propensão perversa e maliciosa. Cada narrador de um caso de má conduta em um exemplo talvez não hediondo em primeira instância, acrescentou algo ao fato original, até que a ofensa tenha permanecido diante do público tão enegrecida por essa "difamação acumulada",  que uma vez perdeu o seu caráter, e só o recuperou parcialmente no final, e isso com extrema dificuldade.
Recordando a existência de tal mal, devemos ser tardios ​​para formar uma opinião desfavorável na primeira aparição, e onde não pudermos acreditar em todas as coisas, devemos estar dispostos a ESPERAR. Tal é o ditado do amor, e tal é a conduta daqueles que cedem seus corações à sua influência.
"O amor suporta todas as coisas."
"O amor acredita em todas as coisas."
"O amor espera todas as coisas."

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Provérbios 10

Introdução

À guisa de esclarecimento achamos oportuno informar a razão pela qual estaremos nos dedicando a publicar comentários alusivos a capítulos, em separado, do livro de Provérbios.
Estamos vivendo dias em que os padrões de comportamento são os mais diferentes possíveis, sendo aceitos pela maioria da sociedade, independentemente se estes se encontram respaldados ou não, em valores e princípios morais. 
Há uma tendência para se cultuar o corpo, à custa da negligência do cuidado com a alma e o espírito. 
O imediatismo prático de nossa época tem influenciado a própria Igreja, pela dificuldade cada vez maior de se aplicar padrões de ensino/aprendizagem dos princípios revelados na Palavra de Deus.
As manifestações emocionais, os êxtases místicos, apresentações teatrais, entre outros têm ocupado o lugar que era devido à pregação e ao ensino da Palavra de Deus, que sempre norteou o comportamento dos crentes no passado. 
Não admira, portanto, que se veja tanto comportamento antibíblico sendo tolerado e até mesmo justificado, por aqueles que o praticam, apesar de se confessarem servos de Cristo. 
É um grande engano se pensar em vida consagrada e devotada a Deus pela mera prática religiosa, quando não é acompanhada pela devida mudança dos velhos hábitos mundanos de vida. 
O alvo do evangelho é o de transformar a mente e o coração; o que é feito, sobretudo pela implantação das virtudes de Cristo no crente, pela Palavra de Deus, consoante a operação poderosa do Espírito Santo. 
Por conseguinte, temos no livro de Provérbios uma grande fonte na qual podemos aprender qual é o tipo de comportamento que convém aos servos de Jesus Cristo, para o inteiro agrado de Deus. 
Como as citações de caráter comportamental prático, do livro de Provérbios começam no seu décimo capítulo, então faremos do mesmo o nosso ponto de partida. 
Os provérbios são geralmente frases curtas, contendo duas frases em contraposição em cada versículo, sem que haja uma coerência e harmonia obrigatória em cada versículo. De modo que não precisamos tentar reduzir o conteúdo a algum título comum, pois cada verdade deve ser apreciada, de preferência, em separado. 
Estaremos apresentando os versículos isoladamente ou em grupos, conforme a conveniência, e destacaremos os versículos do capítulo em negrito para uma melhor identificação. 




1 Provérbios de Salomão. Um filho sábio alegra a seu pai; mas um filho insensato é a tristeza de sua mãe.
Salomão, falando-nos como a filhos observa aqui, o quanto o conforto dos pais depende do bom comportamento daqueles sob o seu cuidado, por uma razão:
1. Por que os pais devem ter o cuidado de dar aos seus filhos uma boa educação, e treiná-los nos caminhos da religião, que, se obtiver o efeito desejado, eles próprios terão conforto nisto, e ainda terão o apoio dos pais para que possam cumprir os encargos conforme é o seu dever.
2. Por que os filhos devem se comportar com sabedoria e bem, vivendo de acordo com a sua boa educação, para que possam alegrar o coração de seus pais, e não entristecê-los.
Observe: 
(1) Isto contribui para o conforto dos jovens que são piedosos e discretos, para que façam alguma coisa no sentido de recompensarem seus pais por todos os cuidados e dores que tiveram com eles, o que será uma ocasião de prazer nos dias de sua velhice, quando mais precisam deles. E, é dever dos pais se alegrarem com a sabedoria de seus filhos e praticarem o bem.
(2.) Isto aumenta a culpa daqueles que se comportam mal, porque são causa de tristeza para aqueles que deveriam ser uma alegria, porém são um peso especial para pobres mães que os suportaram com tristeza.
Este princípio apresentado pelo sábio é um princípio divino para regular as relações entre pais e filhos. Aos pais cabe formar o caráter de seus filhos, principalmente naquelas coisas reveladas por Deus em Sua Palavra, conforme se depreende do ensino de Deuteronômio 6 e tantas outras passagens bíblicas, que desenvolvem o mandamento de honrar aos pais, constante do decálogo. 
Se os pais têm o encargo divino de formar, então é uma consequência natural que os filhos devem obedecê-los e honrá-los, para que possam aprender por meio do seu ensino e exemplo, o modo pelo qual importa viver para o inteiro agrado de Deus. 
Infelizmente, vivemos numa época em que os pais já não são em sua grande maioria, exemplos do caráter divino para seus filhos, e na verdade, há casos em que em vez de os filhos serem um motivo de tristeza para suas mães, estas é que são para eles.
Todavia, o mandamento de Deus permanece para aqueles que o amam , e dão a devida consideração à Sua Palavra. 
A família nuclear, constituída por pais e filhos vivendo sob o mesmo teto, especialmente no período em que os filhos se encontram sob a dependência completa dos pais, para sua formação física, mental e espiritual, quando possui e conhece o verdadeiro temor que é devido a Deus e à sua Palavra, notadamente naqueles aspectos relativos aos Seus mandamentos em relação ao modo de se proceder em família será uma bênção tanto para si mesma, quanto para outras pessoas e famílias circunstantes debaixo da sua influência. 
Não é coisa fácil para um homem assumir o papel de cabeça do lar, nos termos determinados pelo Senhor em Sua Palavra. É necessário consagração e coragem para isto; mas bem-aventurado será tanto o esposo, quanto a esposa que colocarem por prática o princípio de liderança/submissão estabelecido por Deus para todos os casais.
Os filhos que forem educados e admoestados no temor do Senhor, e que aprenderem o verdadeiro temor de Deus, também aprenderão a temer e a respeitar seus pais, sendo-lhes em tudo obedientes. 
Quando Deus é honrado desta forma, Ele também honra a família, concedendo-lhe a graça necessária para viver em harmonia e em paz.



2 Os tesouros da impiedade de nada aproveitam; mas a justiça livra da morte.
3 O Senhor não deixa o justo passar fome; mas o desejo dos ímpios ele rechaça.
Estes dois versos falam com o mesmo propósito, e o último apontado pode ser a razão do primeiro. 
1. Que as riquezas que os homens obtêm injustamente não lhes farão bem, porque Deus as destruirá – os tesouros da impiedade de nada aproveitam. 
Os tesouros de pessoas ímpias obtidos pelo domínio de pessoas fracas, por opressão e fraude, ainda que seja abundante, e lhes dê sempre um sentimento de segurança, ainda assim não representam qualquer vantagem, porque quando vier o juízo, o lucro obtido com tais tesouros jamais poderá compensar o prejuízo eterno que é sofrido por causa da impiedade (vide Mateus 16.26). 
Eles não trazem qualquer lucro para a alma; como não irão comprar qualquer verdadeiro conforto ou felicidade. Eles não conduzirão um homem a qualquer lugar seguro e confortável no momento da morte, ou no julgamento do grande dia; a razão disso é porque Deus  lança fora a substância dos ímpios  (verso 3). O desejo de uma cobiça pecaminosa foi o que os direcionou à acumulação de riquezas injustamente, e por isso Deus os rechaça.
Assim, os que têm acumulado muito à custa da prática da injustiça se encontram em condições mais perigosas do que os pobres, em relação ao juízo de Deus, porque a justiça requer que nos lembremos dos pobres e façamos um uso adequado, equitativo e justo dos bens que adquirimos. 
2. O que é honestamente adquirido se transformará em boa conta, pois Deus vai abençoá-lo.  
A justiça livra da morte,  isto é, a riqueza adquirida, e mantida, e usada, de uma maneira correta (justiça significa tanto a honestidade e como a caridade); ela responde ao fim da riqueza, que é para nos manter vivos e ser uma defesa para nós. Ela vai livrar daqueles julgamentos que os homens trazem sobre si mesmos, por sua maldade. 
O Senhor não vai deixar a alma do justo passar fome (verso3), pois tem prometido prover para todo aquele que nele confia, e assim, a sua fé que o leva a agir conforme a justiça divina, o livrará da morte espiritual e eterna, bem como da morte física enquanto aqui viver, porque será assistido pela provisão de Deus. 
Será puramente pela graça de Deus, a qual é a sua vida e sustento, que não é possível que seja subjugado pela fome. A alma do justo deve ser mantida viva pela palavra de Deus, e fé em sua promessa.





4 O que trabalha com mão remissa empobrece; mas a mão do diligente enriquece.
 Aqui nos é dito:
1. Que aqueles que, embora sejam ricos, estão em perigo de se tornarem pobres, caso afrouxem suas mãos, sendo descuidados e negligentes em seus negócios.  Aqueles  que lidam com a mão enganosa;  que pensam em enriquecer por meio de fraude e engano, no final virão a empobrecer, não somente por trazerem a maldição de Deus sobre o que têm, mas por perderem sua reputação com os homens; pois ninguém em são juízo irá negociar com aqueles que agem de maneira desonesta. 
2. Que são aqueles que, apesar de pobres, estão em um caminho justo para se tornarem ricos - aqueles que são diligentes e honestos, que são cuidadosos com seus negócios e, os que trabalham com suas próprias mãos com toda diligência, de forma justa e honrosa são os que são susceptíveis a aumentarem o que têm.  Isto também se aplica aos assuntos relativos à nossa alma, bem como em nossos assuntos seculares, pois a indolência conduz à pobreza espiritual, mas aqueles que são  fervorosos no espírito, servindo ao Senhor, certamente serão ricos em fé  e boas obras.
Digno de registro é que o sábio, não está falando de riquezas do modo como são entendidas pelos que são cobiçosos de poder terreno, de luxúrias e ostentação. A riqueza aqui referida é aquela que atende a todas as nossas necessidades reais, conforme a provisão de Deus,  pois tem prometido abençoar ao que trabalha e que nele espera.  






5 O que ajunta no verão é filho prudente; mas o que dorme na sega é filho que envergonha.
Deste provérbio que se refere à atividade rural, pode ser retirado um princípio universal de sabedoria e prudência.
A formiga trabalha com prudência nos dias quentes de verão, para que possa ter provisão e abrigo nos dias de inverno.
Nossas vidas têm os seus invernos, e exigem que sejamos prudentes nos dias em que as condições permitem que trabalhemos, para ter provisões nos dias difíceis.
Temos assim, neste provérbio o justo louvor àqueles que aproveitam suas oportunidades, e têm o cuidado de recolher e aumentar o que têm, tanto para a alma quanto para o corpo.
Quem faz isso  é um filho sábio,  o que é a sua honra; que aja com sabedoria em relação aos seus pais, a quem, se houver ocasião, ele deve manter. 
A justa censura e culpa daqueles que desprezam estas oportunidades;  quem dorme,  ama a sua vontade indolente, e negligencia seu trabalho, não juntando para os dias difíceis é um filho que causa vergonha,  pois é um filho insensato que traz vergonha para si mesmo quando chega o inverno, e reflete vergonha para todos os seus amigos. 
O que adquire conhecimento e sabedoria nos dias de sua juventude  ajunta no verão,  e ele vai ter o conforto do crédito da sua industriosidade; mas o que é ocioso nos dias de sua juventude terá que suportar a vergonha de sua indolência, quando for velho. 






6 Bênçãos caem sobre a cabeça do justo; porém a boca dos ímpios esconde a violência.
Temos aqui a cabeça do justo coroada com  as bênçãos,  tanto da parte de Deus, quanto da dos homens. Variedade de bênçãos, abundância de bênçãos descerá do alto e repousarão visivelmente sobre a cabeça dos homens bons; bênçãos reais que não serão somente comentadas, mas farão o bem para o qual foram designadas. 
Estas bênçãos devem estar em sua cabeça como uma coroa para enfeitar e dignificar, e como um capacete para proteger. 
Mas, a boca dos ímpios está cheia de  violência.  Suas bocas serão detidas com vergonha por causa da violência que fizeram; e não devem ter uma palavra de justificativa para si mesmos (Jó 5.16). Os juízos divinos virão sobre eles também de forma violenta, e suas ações devem cair sobre suas próprias cabeças. 





7 A memória do justo é abençoada; mas o nome dos ímpios apodrecerá.
Tanto o justo quanto o ímpio, quando seus dias são cumpridos devem morrer. Entre seus corpos na sepultura não há qualquer diferença visível; todavia, entre suas almas, no mundo dos espíritos há uma grande diferença, pois tudo o que fizeram sobrevive à morte física. 
Dos homens bons será, e deve ser bem falado quando se forem; e isto é uma das bênçãos que vêm sobre a cabeça do justo. Homens abençoados deixam atrás de si memórias abençoadas. 
Isto é parte da dignidade dos santos, especialmente daqueles que se destacam na virtude e são eminentemente úteis; o fato de serem  lembrados com respeito quando estão mortos. Seu bom nome, por conta de suas boas obras são como um tipo de unguento especial (Ec 7.1). Os que honram a Deus também serão honrados (Sl 112.3,6,9).  Os anciãos  obtêm um bom testemunho pela sua fé (Heb 11.2); e, estando mortos, ainda falam. 
É parte do dever dos sobreviventes deixar que a memória do justo seja abençoada.
Temos prazer em fazer menção honrosa a bons homens que se foram; graças a Deus por eles, por seus dons e pelas graças que existiam neles, especialmente, para sermos seus seguidores naquilo que é bom.       
Os homens maus são e devem ser esquecidos, ou citados com desprezo. Quando seus corpos estão em putrefação na sepultura seus  nomes  também  devem apodrecer.  Tudo relativo a eles será enterrado no esquecimento (nada de bom pode ser dito deles, e, portanto, a maior bondade que pode ser feita a eles é nada dizer sobre eles).
    



8 O sábio de coração aceita os mandamentos; mas o insensato de lábios cairá.
Aqui, nós temos a honra e felicidade dos obedientes. 
Eles  recepcionarão os mandamentos,  vão considera-los um como um privilégio, e é realmente uma facilidade para eles estarem sob o governo divino, que lhes poupa o trabalho de terem que deliberar e escolher por si mesmos o que é bom; assim terão isto como um favor que lhes é feito por Deus. 
Esta é a sua sabedoria; pois são  sábios de coração, e são tratáveis, o que fará com que sejam firmados e estabelecidos por Deus, de modo que venham a prosperar em tudo o que fizerem. 
Temos também citado em paralelo, a vergonha e ruína dos desobedientes, que não serão governados por Deus, e não suportarão qualquer jugo, ainda que seja o leve e suave da nossa obediência Jesus. Estes não tomam conselho na Palavra de Deus, e não permitem serem ensinados.  
Eles são insensatos, pois agem contra si mesmos e seus próprios interesses, especialmente no que se refere ao bem eterno de suas almas.
A sua insensatez é percebida no que proferem os seus lábios, pois sua conversão gira em torno de tolices, de coisas vãs e passageiras, nas quais costumam se gloriar. 





9 Quem anda em integridade anda seguro; mas o que perverte os seus caminhos será conhecido.
Aqui nos é dito, e podemos confiar de fato nesta verdade da qual podemos depender, que a  integridade dos homens será a sua segurança,  pois aquele que anda retamente  na presença de Deus e dos homens, que é fiel a ambos, anda seguro, porque estará sob uma proteção divina especial. 
Ele segue seu caminho com uma ousadia humilde, por estar bem armado contra as tentações de Satanás, os problemas do mundo, e as injúrias dos homens, uma vez que além de ser-lhe concedida graça suficiente para isto, também tem sido instruído e dirigido quanto ao modo de proceder em cada situação da vida, adquirindo cada vez mais experiência da bondade, do amor, do poder e proteção de Deus.
Ele conhece o fundamento em que  se encontra, o guia que ele segue e o guarda, portanto, prossegue com segurança e paz em sua jornada.   
Um homem de caráter justo também andará seguro, porque terá a prudência de se opor a tudo aquilo que possa envolvê-lo em aventuras. Ele possui sabedoria suficiente recebida da parte de Deus, para se desviar do mal.
Mas a desonestidade dos homens será a sua vergonha. Aquele que perverte seu caminho,  e se desvia em caminhos tortuosos, que dissimula com Deus e com o homem, virá a ser conhecido  pelo que ele é realmente. Numa hora ou outra ele trairá a si mesmo e se revelará. Deus vai descobri-lo no grande dia do juízo.  




10 O que acena com os olhos causa tristezas; e o insensato de lábios cairá.
Aqui é dito algo que se aplica principalmente, ao modo de desígnio político, quando alguém pisca o olho com a intenção de disfarçar seus reais interesses em enganar e prejudicar alguém, levando-lhe a crer estar atento às suas necessidades, ao mesmo tempo que acena para aqueles que teriam o encargo de satisfazê-las, piscando o olho, para que se faça exatamente o contrário, mas sem despertar a atenção do que será prejudicado, para o seu real interesse em fazer-lhe mal. 
Evidentemente, o que aqui se diz é que com um simples gesto pode ser causada muita tristeza a outros, que de boa fé, colocam sua confiança em pessoas de mau caráter. 
Aquele que pisca o olho para seus cúmplices, para que venham a produzir o mal, a fim de ser ajudado na execução  de seus projetos perversos, não sabem que estarão dando causa a terem tristezas, eles próprios, pois certamente Deus os julgará e punirá. 
Este provérbio também cita a queda que experimentará aquele que é insensato de lábios, ou seja, o que revela sua insensatez, pelo modo da sua conversação; o que demonstra, que não possui qualquer temor ou graça de Deus pelo seu modo de falar e se expressar, pois a boca fala daquilo que o coração está cheio. 



11 A boca do justo é manancial de vida, porém a boca dos ímpios esconde a violência.
Veja aqui quão industrioso um bom homem é, ao comunicar a sua bondade, ao fazer o bem com o uso das palavras de vida e edificação que fluem da sua boca.
A boca do justo  é uma fonte constante, da qual procede um bom discurso para a edificação dos outros; é como a corrente que rega o solo e o torna frutífero, e também como um riacho que sacia a sede do viajante cansado, pois dela não procede  propriamente a sua palavra, mas a palavra abençoadora ensinada e impetrada por Deus, pela sua instrumentalidade. 
É um manancial de vida, cujas águas são sempre limpas e puras, pois por ela não se transmite uma comunicação que seja enganosa e corruptora.
Mas, a boca do ímpio, ainda que fale coisas agradáveis e doces, esconde no seu falar a violência que há no seu coração. Deste seu falar não pode proceder qualquer bem real para aquele que o ouve, porque Deus não é com a sua boca.
A boca da violência disfarça o mal projetado com profissões de amizade, que podem ser realizadas na forma mais segura e eficaz, como Joabe, que beijou Amasa e o matou, como Judas, que beijou e traiu a Jesus.
Ambos não deixaram de receber a devida paga da parte de Deus, e assim sucederá com todos aqueles que são guiados pela violência, e não pelo amor e temor de Deus. 
Em nossa vida prática diária são muitas as pessoas que se aproximam de nós, e fazem questão de nos assegurar que intentam nos fazer o bem, quando na verdade, em seu íntimo projetam coisas que possam nos prejudicar. Por isso precisamos da prudência da serpente, além da simplicidade da pomba, para não recebermos muitas feridas da parte dos lobos disfarçados em ovelhas, que têm o propósito de devorar a nossa paz e o bem de nossa alma. 




12 O ódio excita contendas; mas o amor cobre todas as transgressões.
Este é um provérbio muito conhecido, especialmente a sua segunda parte que é muito citada no Novo Testamento, na qual se diz que o amor cobre multidão de pecados. 
O amor cobre o pecado, não o desculpando e justificando, mas não fazendo do pecado dos outros uma oportunidade para criar contendas e dissabores. 
Podemos dizer em relação a isto, que o amor passa por alto sobre o pecado alheio na busca de uma oportunidade de arrependimento e conciliação, pois o amor nunca visa à ruína do próximo, senão à sua edificação. 
Já o ódio,e  a malícia são grandes geradores de contendas e divisões. O coração que não estiver sendo guiado pelo amor e graça de Deus fica à mercê desses dois traidores do bem-estar de nossa alma, e, que se fazendo dissimuladamente de defensores de nossa justiça e honra, colocam-nos em contendas que muitas vezes tornam irreconciliáveis aqueles aos quais sujeita. 
Quão imperioso é que se vigie em todo o tempo, porque não apenas o pecado que habita em nossa natureza terrena, quando não mortificado, como também o Inimigo do ar de nossa alma – Satanás, o diabo, sempre procurará ocasião para indispor nossos corações até mesmo com aqueles aos quais mais amamos, produzindo discórdia e indisposição pelos mais variados e tolos motivos. 
É necessário recorrer à graça do Senhor e repreender o Inimigo, buscando com toda intensidade, a paz da qual tanto necessitamos em nossos relacionamentos.  
O amor é o grande pacificador, que em vez de nos tornar irritados com as faltas alheias, nos faz pacientes e nos capacita a suportá-las por maiores que elas sejam. 
O amor, em vez de anunciar e agravar a ofensa, a oculta e extermina na medida em que é capaz de ser escondida e extenuada. 






13 Nos lábios do entendido se acha a sabedoria; mas a vara é para as costas do que é falto de entendimento.
O entendido, aqui citado, é aquele que conhece a vontade Deus e a pratica. Este é conhecido pelo que fala; pois a conversação de uma pessoa revela quem ela é de fato.
Como ele conhece a vontade de Deus e a pratica será achada a sabedoria em tudo o que falar, o que será uma honra para ele perante os homens bons e perante Deus. 
Do bom tesouro que há no seu coração, ele pode dispor de todas coisas que sejam boas para a salvação e edificação dos seus ouvintes. O seu bom proceder revelado na sua forma de falar demonstra que não se encontra de fato, debaixo de qualquer juízo da parte de Deus, e não será comum vê-lo sendo corrigido pela vara da aflição, com a qual o Senhor disciplina todos os seus filhos. 
Por isso, o Provérbio afirma que o que for falto de entendimento estará sempre debaixo da vara de correção divina. Assim, todo aquele que procede voluntariamente de modo insensato, por trilhar maus caminhos, está preparando varas para si mesmo, e caso não se volte para Deus, elas deixarão marcas que serão a sua desgraça perpétua. 
14 Os sábios entesouram o conhecimento; porém a boca do insensato é uma destruição iminente.
Evidentemente que o conhecimento e a sabedoria aqui referidos, não são aqueles que são segundo o mundo, cujo fundamento se encontra na artimanha dos homens. 
O conhecimento que é entesourado pelos sábios é aquele que conduz à vida eterna – é o conhecimento de Deus e da sua vontade, pois é posta em paralelo a destruição iminente do insensato – destruição esta, que somos informados pelas Escrituras, é aquela que conduz a alma dos homens ao sofrimento eterno no inferno de fogo, quando lhes falta o verdadeiro conhecimento de Deus e da sua vontade. 
Diz-se iminente, porque a nossa jornada terrena é curta, e logo após à nossa morte somos submetidos ao juízo que determina, se somos dignos de ir para o céu ou para o inferno. 
Toda a dignidade que temos é apenas aquela que recebemos da justiça de Cristo, que possuímos somente por meio da nossa comunhão com ele, de modo que é o conhecimento da sua pessoa divina que nos justifica, e nos torna capazes de entesourar em nossa mente e coração todo o conhecimento que recebemos dele, por revelação.
O Senhor Jesus disse em seu ministério terreno, conforme palavras que temos registradas nos evangelhos, que por nossas palavras seremos condenados ou justificados, ou seja, é por meio do que falamos que damos a conhecer se somos dotados ou não daquela sabedoria do alto que nos livra da ira vindoura. 




15 Os bens do rico são a sua cidade forte; a ruína dos pobres é a sua pobreza.
Deus tem prometido prover tudo o que for necessário para aqueles que buscam em primeiro lugar, o Seu reino e a Sua justiça.
Além da graça que alimentará o seu espírito, ele tem prometido também fazer provisão para o seu corpo, conforme podemos ver nas palavras de Jesus no Sermão do Monte. 
Então, a riqueza aqui referida não é aquela provinda de, e para ostentação, senão o suprimento necessário para nossa vida, conforme a provisão de Deus, de modo que se diz que jamais se verá o justo e a sua descendência a mendigar o pão, pois nunca terá necessidade disto enquanto estiver debaixo da provisão de Deus. 
A cidade forte à qual se refere o Provérbio é a segurança que isto traz à alma do justo, e daqueles que se encontram debaixo do seu cuidado. Deus é uma cidade forte para ele, e isto se revela no cuidado que tem até para com as coisas que os gentios buscam, e somente elas, a saber as materiais.
Por conseguinte, quando se vê alguém que professando ser um crente em Jesus Cristo, anda com um prato na mão à busca do favor dos homens, implorando e mendigando por sua subsistência, é um sinal de ruína e não de bênção da parte de Deus, pois como já dissemos, tem sido fiel em prover o necessário para todos os seus filhos que o amam, e o temem. 







16 O trabalho do justo conduz à vida; a renda do ímpio, para o pecado.
17 O que atende à instrução está na vereda da vida; mas o que rejeita a repreensão anda errado.
Inspirado pelo Espírito Santo, o sábio nos ensina que o modo de se alcançar e manter a vida eterna é ser justificado por Deus, viver de modo justo, e provar este modo justo de vida por um trabalhar honesto e permanente. 
Deus é de vivos e não de mortos, e a vida se comprova pela atividade do trabalho. Os mortos nada fazem, porque a vida se expressa pelo trabalho.
A ideia de enriquecer por uma via fácil para nunca mais trabalhar é, portanto, um projeto de morte e não de vida, pois o homem só é útil para Deus e o seu próximo, quando trabalha de modo justo, numa atividade justa. 
Alguém que assim trabalhe, não para a própria glória, mas para a exclusiva de Deus está caminhando pela senda da vida eterna, e tudo tende para esta vida, mas, aquele que obtém sua renda através da impiedade, tende sempre para a prática do pecado, e sabemos que o salário do pecado é sempre a morte. 

Estas coisas não são aprendidas por intuição, senão por instrução, pela que recebemos da parte de Deus por meio da instrução do Espírito Santo, na aplicação da Sua Palavra à nossa vida. 
O atender e praticar esta instrução é o que nos coloca na trilha da vida eterna. Porém, o que rejeita esta instrução torna-se digno da repreensão de Deus, e vindo a rejeitar também esta repreensão, em vez de emendar seu caminho, estará vivendo de modo errado, cujo fim é a morte espiritual e eterna. 
 Os que andam de modo errado, não somente não acolhem a instrução de Deus, como também a recusam deliberada e obstinadamente, quando lhes é oferecida. Eles não vão atendê-las, porque contrariam seus interesses e inclinações carnais e pecaminosos, e o somente lê-las expõe claramente suas falhas, o que não agrada ao seu ego orgulhoso. 
De modo que terem de reconhecer que estão errados e Deus está certo, e que convém que se inclinem e prostrem no pó em arrependimento, é algo por demais penoso para a sua arrogância e altivez, de modo que não o podem suportar, continuando assim, a caminhar nas veredas da morte. 



18 O que encobre o ódio tem lábios falsos; e o que espalha a calúnia é um insensato.

Este Provérbio revela claramente,  até que ponto pode se expressar a maldade inerente ao coração humano, do qual se diz na Bíblia que é a coisa que há de mais corrompida entre todas. Jesus disse, que é do coração humano que procede todo o mal que há no mundo. 
Mesmo de um bom homem, que busca ser justo e fiel a Deus em todas as coisas, não se pode dizer que possui um bom coração, pois estaríamos contrariando aquilo que a Bíblia afirma, que é o contrário disto. 
De fato, a natureza terrena do homem está continuamente inclinada para o mal, e se não fosse pela intervenção da graça divina, pelo trabalho do Espírito Santo em reprimir o mal, mesmo nos ímpios, de há muito este mundo já não existiria, porque todos teriam se destruído mutuamente.
Mesmo quando muitos parecem estar se interessando em fazer o bem ao próximo, na verdade o que estão fazendo é dissimulando, escondendo o ódio que existe em seus corações com palavras aparentemente boas.
Não são poucos os que são enganados por estes lábios falsos, que escondem o mal que há no interior do coração. Passam até mesmo, muitas vezes, por benfeitores da humanidade.
Dentre estes, não é raro encontrar-se aqueles que se dedicam a atividades políticas, pois lhes é necessário esconder o mal latente que há em todo coração, com uma face de guardiões da moralidade e dos bons costumes, em prol de fazer o bem aos seus governados. 
Por isso é viver de ilusão, esperar que se levante na terra um homem de bom coração, cujo propósito nunca seja interesseiro, que tudo faça em nome da justiça, do amor e da misericórdia para com o seu próximo, pois, de si mesmo, ninguém é suficiente para isto. 
O veneno do coração pode ser facilmente escondido pela língua, e ser instilado dissimuladamente, de modo que muitos venham a ser contaminados por ele. 
Não raro, para defenderem seus interesses, que demandam o prejuízo de outrem, os homens costumam caluniar o bom nome deste, de modo que lhe trazendo descrédito e infâmia recebam no lugar deles, aquilo que lhes estava destinado como recompensa, ou então pelo simples interesse de se vingarem por inveja ou qualquer outro motivo. 
Todavia, se esquecem que os olhos do Altíssimo tudo veem, e ele julgará a cada um segundo as suas obras. 
Por isso se afirma que, aquele que calunia é um insensato, pois pensando em estar tirando vantagem para si no que faz, está na verdade causando sua própria ruína.  

19 Na multidão de palavras não falta transgressão; mas o que refreia os seus lábios é prudente.
Como a natureza terrena pecaminosa nunca será mortificada completamente enquanto estivermos neste mundo, é bem provável que ela se manifeste, especialmente quando nos damos ao muito falar. 
Um homem que tem domínio completo sobre o que fala é alguém que possui um espírito e uma mente poderosos. Todavia não é este o caso geral e comum à humanidade. 
Mesmo um crente terá que vigiar seus lábios, para que não venha a se expressar de modo imprudente e pecaminoso. Assim, é sábio aquele que pouco fala e não faz da multidão de palavras o seu negócio, pois sabe que o muito falar é sempre passível de apresentar alguma transgressão dos preceitos de Deus. 
Se no dia do juízo teremos que prestar contas a Deus, até mesmo de cada palavra ociosa que tivermos proferido, então é sábio e prudente seguir o conselho do provérbio em questão.
No dizer do apóstolo Tiago devemos ser sempre prontos para ouvir, mas tardios para falar, e certamente, quando disse isto, ele tinha em vista este princípio ao qual todos estamos sujeitos. 





20 A língua do justo é prata escolhida; o coração dos ímpios é de pouco valor.
21 Os lábios do justo apascentam a muitos; mas os insensatos, por falta de entendimento, morrem.
A língua do justo é tida em maior valor do que o coração do ímpio, porque a boca do justo fala daquilo que procede do seu coração regenerado e renovado pelo Espírito Santo, o qual é agora de grande valor para Deus e os homens de boa vontade. 
O justo, portanto, que é dado a ser conhecido pelo seu modo de falar é tido na conta de algo de grande valor, sendo comparado à prata escolhida (purificada).
A razão deste valor não se encontra na beleza ou eloquência de sua conversação, mas no efeito que ela produz, apascentando a muitos, ou seja, alimentando-os com as palavras de vida eterna que aprendeu de Jesus Cristo. 
Os que se estão sob a influência das palavras do justo são bem-aventurados, pois são por meio dele tornados também entendidos nas coisas de Deus, pois ao conhecerem a Sua vontade e praticá-la pelo que aprenderam, virão a trilhar pelos caminhos da vida eterna, onde se encontra a bênção plena de Deus. 
Por isso se diz que os insensatos, ou seja, aqueles que não ouvem as palavras do justo, e não buscam o conhecimento de Deus permanecem na condição de mortos espirituais que são, por lhes faltar tal entendimento, pois a justiça que nos justifica, conforme já proferido no texto de Isaías, nos vem somente pelo conhecimento do único que é inteiramente justo, a saber, nosso Senhor Jesus Cristo, já que é somente por conhecê-lo que somos e podemos ser justificados.
   






22 A bênção do Senhor é que enriquece; e ele não a faz seguir de dor alguma.
O Senhor exalta e abate, mas sempre para o bem daqueles que o amam. 
Satanás ao contrário, sempre abate, mesmo quando parece estar exaltando, e tudo aquilo que ele dá, ele retira de forma dolorosa. 
No Senhor, até mesmo as perdas que temos, incluída aí até mesmo a nossa morte física, é para a nossa glorificação e proveito. 
Quando o Senhor aflige, com sua correção de Pai amoroso, é para a nossa disciplina e maior participação da sua própria santidade. 
De modo que a dor referida no Provérbio, que nunca acompanha a bênção que recebemos de Deus, é aquela que é relativa a um dano e perda real de consequências eternas.
Em todas as nossas lutas, especialmente aquelas que temos com os principados das trevas, que despedem setas inflamadas sobre nós e colocam espinhos em nossa carne, temos aprendido quão forte é o Senhor para nos guardar e livrar, como para remover toda a confiança em nossa própria capacidade – que a propósito é nenhuma, no que tange às coisas espirituais – de modo que aprendamos a recebê-la diretamente de Jesus Cristo, por meio da simples fé nele. 
Concluímos em face de tudo isto, que somente aquele que tem a bênção de Deus é verdadeiramente rico, e está sendo continuamente enriquecido pela graça, pois nada do que tiver recebido lhe trará qualquer dor ou perda, senão apenas ganho eterno.
Esta bênção, uma vez concedida como um dom da parte de Deus, especialmente a da salvação, é um dom irrevogável, e nenhum poder deste mundo ou de qualquer outro poderá tirar isto de nós. 
A bênção do consolo e fortalecimento que recebemos da parte de Deus, sempre nos acompanharão em nossas aflições neste mundo, de maneira que possamos suportá-las e superá-las. Estas aflições suportadas com paciência cristã, por amor ao evangelho e a Cristo, no intuito de fixarmos um bom testemunho diante de Deus e dos homens confirmam a nossa fé, e nos tornam pessoas mais parecidas com Cristo. 
De modo que se diz, que o reino dos céus e a posse da terra é daqueles que são humildes de espírito e mansos de coração. 
Rico é aquele cuja confiança está colocada inteiramente em Deus, por mais difíceis que sejam as circunstâncias nesta vida. 






23 E um divertimento para o insensato o praticar a iniquidade; mas a conduta sábia é o prazer do homem entendido.
24 O que o ímpio teme, isso virá sobre ele; mas aos justos se lhes concederá o seu desejo.
25 Como passa a tempestade, assim desaparece o ímpio; mas o justo tem fundamentos eternos.
Aqui é dito mais uma vez, que tudo irá bem para os justos, mas aos ímpios é dito que o juízo que temem certamente há de vir sobre eles. 
O motivo também é declarado para esta diferença de tratamento recebido da parte de Deus, porque para o insensato a sua diversão é a prática da iniquidade, ou seja, de agir contra a lei e os mandamentos de Deus. Iniquidade à qual Jesus se referiu dizendo, que se multiplicaria nos últimos dias, porque os homens seriam mais amantes dos prazeres do que da vontade de Deus, e não teriam amor por aqueles que procuram agir de maneira justa e santa. 
O que vive da prática da impiedade sempre terá, de uma forma ou de outra, o temor de ser apanhado na prática do mal que realiza. 
Mas o justo vive na firme convicção e expectativa de receber as bênçãos e recompensas de Deus, ainda que seja injustamente tratado pelos homens. 
O justo é colocado por Deus sobre um fundamento eterno, uma rocha que jamais poderá ser abalada, que é Jesus Cristo. É nele que sua vida está sendo edificada, portanto, não tem por que temer qualquer mal.
Mas, como a tempestade que vem e logo desparece, assim é a vida do ímpio, no dizer de Deus nesta Escritura, pois de fato vive como uma tempestade para produzir danos espirituais na terra, porém, assim como o Senhor dissipa a tempestade, também haverá de dissipá-los sem que se tenha qualquer lembrança futura deles, que lhes recomende para o bem, pois não há tempestade da qual se possa falar bem, ou ter uma lembrança agradável. 
A prosperidade material dos ímpios, assim como a tempestade, rapidamente acabará, mas a felicidade do justo nunca terminará.
Os ímpios produzem muita agitação, barulho e destruição na terra, assim como  a tempestade, mas Deus diz que eles logo passarão e não voltarão para conturbar o reino de paz e justiça que Ele estabelecerá com Cristo e os justo, por ocasião da sua volta. 






26 Como vinagre para os dentes, como fumaça para os olhos, assim é o preguiçoso para aqueles que o mandam.
27 O temor do Senhor aumenta os dias; mas os anos dos ímpios serão abreviados.

O vinagre embota os dentes, e a fumaça faz arder os olhos  prejudicando a visão. Este é o efeito produzido naqueles que dão alguma missão para ser cumprida pelo preguiçoso.
O homem que não é diligente e não se dispõe a aprender a fazer o que é bom, sempre será um grande estorvo na vida daqueles que seguem pela senda do bem. 
Não existe um aparente contraste entre o que é dito no verso 26 e no 27, mas podemos ver por detrás das afirmações, que o temor do Senhor que nos torna diligentes em fazer o bem acrescenta aos justos, os dias de vida que são abreviados aos ímpios. 
Por mais tempo que um ímpio viva neste mundo será como uma nuvem passageira, comparado com a eternidade de glória que está prometida por Deus para os justos, que já começam a desfrutar aqui, por meio da sua fé em Jesus Cristo. 
Isto nos remete as palavras do salmista que foram repetidas pelo apóstolo Pedro:
1Pe 3:10 Pois quem quer amar a vida e ver dias felizes refreie a língua do mal e evite que os seus lábios falem dolosamente;
1Pe 3:11 aparte-se do mal, pratique o que é bom, busque a paz e empenhe-se por alcançá-la.
1Pe 3:12 Porque os olhos do Senhor repousam sobre os justos, e os seus ouvidos estão abertos às suas súplicas, mas o rosto do Senhor está contra aqueles que praticam males. 
O apóstolo confirma as palavras do Salmo 34.12-16, como sendo a fórmula da vida abençoada por Deus.
Ali se destaca, a necessidade de se refrear a língua da maledicência e do engano; o ato de se separar do mal e praticar o bem, e buscar a paz e permanecer nela (v. 10, 11).
O motivo de tal necessidade é apresentado, como sendo o fato de que os olhos de Deus estão voltados para os justos, e os Seus ouvidos abertos para atender às suas orações, mas o rosto do Senhor é contra aqueles que praticam o mal (v. 12).
Para reforçar o argumento para a prática das coisas que havia ordenado, o apóstolo afirmou que não é comum que alguém se disponha a fazer o mal a quem é zeloso do bem; revelando com isto que é sendo zeloso do bem que se evita muitos males (v. 13).
Porém, sabendo que há um sofrimento injusto que os cristãos padecem da parte de outros, o qual é permitido por Deus para a provação da sua fé, Pedro diz que os cristãos continuam sendo bem-aventurados aos olhos de Deus, quando padecem tais sofrimentos por amor da justiça, e não devem temer as ameaças dos seus inimigos, nem ficarem com suas mentes e corações turbados por causa deles, mas, permanecerem em santificação com Cristo em seus corações, sujeitando-se ao Seu Senhorio, de maneira que continuem dando um bom testemunho do evangelho, com mansidão em seus corações (v. 14, 15).
Os que sofrem devem ter, no entanto, uma boa consciência, isto é, devem se assegurar que não estão sofrendo por nenhum mau procedimento deles, de maneira que não tenham qualquer sustentação as palavras insidiosas daqueles que falam contra o seu bom procedimento em Cristo (v. 16).
O apóstolo revela que está na esfera da vontade soberana de Deus ,que passemos por determinadas aflições, apesar de estarmos fazendo o bem. Cristo havia passado pelo mesmo tipo de sofrimentos, para servir de modelo para nós naquilo que sofremos por causa do nosso amor à justiça (v. 17). Não havia nEle nenhum pecado ou injustiça como há em nós, mas assim como Ele sofreu até a morte de cruz, para que pudesse quitar a dívida dos nossos pecados, devemos nos armar do mesmo sentimento, estando dispostos a sofrer em favor da salvação do nosso próximo (v. 18).







28 A esperança dos justos é alegria; mas a expectação dos ímpios perecerá.
29 O caminho do Senhor é fortaleza para os retos; mas é destruição para os que praticam a iniquidade.
30 O justo nunca será abalado; mas os ímpios não habitarão a terra.
Por maiores que sejam as expectativas dos ímpios em relação à obtenção de coisas deste mundo, e de realização pessoal, é dito que perecerá, ou seja, nada poderão levar com eles na morte, e na verdade, não lhes será de nenhum real proveito mesmo na vida presente, porque tudo isto está destituído da bênção e glória de Deus, pois nada do que o ímpio faz é para a exclusiva glória de Deus, mediante o influência e o poder do Espírito Santo. 
Assim como a vida natural da árvore é extinta quando ela morre, de igual modo a vida natural do ímpio também cessará um dia, e não terá uma gota sequer daquela vida espiritual que entra pela eternidade afora. 
Força e estabilidade estão vinculados à retidão, a uma vida justa com Deus.  O caminho do Senhor  (a providência de Deus, a maneira com a qual ele caminha conosco)  é fortaleza para os retos, pois é isto o que sustenta o seu espírito em toda e qualquer circunstância, numa boa condição de firmeza.  Esta estabilidade que é firme, há de se manifestar em glória quando o Senhor estabelecer seu reino de justiça, por ocasião da sua volta, pois é dito que os mansos, ou seja, aqueles que foram tementes, e obedeceram a vontade de Deus haverão de herdar a posse da terra juntamente com ele, enquanto os ímpios serão totalmente desarraigados, e não lhes será dada qualquer herança futura, senão apenas a de um sofrimento eterno. 
A herança da terra não tem a ver apenas com o estado de pureza de nossos corações santificados pelo sangue de Jesus e pelo poder do Espírito Santo, mas também com o fato de que somente aqueles que foram disciplinados, de modo a aprenderem a viver com uma santa ousadia em momentos de perigo, e a serem diligentes na realização constante do seu dever e trabalho, conforme a vocação recebida do Senhor, estarão habilitados para os assuntos de administração, de uma terra na qual tão somente deve habitar a verdade, o amor, a alegria, a paz e a justiça. 
Essa  alegria do Senhor  somente pode ser  encontrada no caminho do Senhor, e ela é a nossa força (Neemias 8.10), portanto, o justo jamais será abalado. 
Esta alegria e paz que eles possuem nunca poderá lhes ser tirada, porque estão estabelecidas sobre um fundamento que é eterno. 






31 A boca do justo produz sabedoria; porém a língua perversa será desarraigada.
32 Os lábios do justo sabem o que agrada; porém a boca dos ímpios fala perversidades.
Se há algo com o que a sociedade atual pouco se importa é com a forma de expressão através do linguajar. Não estamos nos referindo à exatidão gramatical e ortográfica na língua falada ou escrita, mas no conteúdo moral e espiritual de nossas conversações e comunicações. 
Já foi citado anteriormente, que a boca fala daquilo que está cheio o coração. 
Como um Deus santo poderia suportar eternamente, a não ser apenas nesta dispensação da graça, na qual tem sido inteiramente longânimo, o falar ocioso de um coração ímpio?
Dá para imaginar um céu com anjos e santos usando de palavras torpes e ociosas em sua conversação?
Não importa que Deus seja santificado aqui na terra, do mesmo modo que é no céu?
De onde procede então, esta ideia de que o crente pode ser descuidado com seu modo de falar e se expressar externamente, pois não é exatamente por meio disto que revela o que há de fato no seu interior?
A língua maledicente e perversa será desarraigada, ou seja, não será mais vista na terra, assim como nunca foi vista no céu. Por isso devemos progredir em santificação, no crescimento na graça e no conhecimento de Jesus, porque é somente assim que podemos falar aquilo o que é agradável a Deus e aprovado por ele. Sem isto, podemos ser achados apesar de crentes, vivendo como ímpios, e participando do mesmo modo de se expressar deles, em cujas conversações não se pode contemplar aquilo que seja agradável a Deus, senão as perversidades de seus corações não regenerados pelo Espírito Santo e pela Palavra da verdade.